O que comemos, como comemos e nosso lugar no mundo

Somos o que somos pela maneira que comemos

Por que os brasileiros comem com talheres e os japoneses com os famosos palitinhos (hashis)? Por que as famosas “uva passas do Natal” se tornam motivo de discussões acaloradas todos os anos? Essas e outras questões sobre o ato de comer revelam comportamentos típicos de cada povo, aprendizados e treinamentos que são compartilhados e passados de geração em geração.

Comer é um aprendizado social. Ninguém nasce sabendo segurar um talher ou um hashi. É um aprendido ao longo do crescimento com os pais e familiares. Podemos perceber que antes mesmo de adquirir coordenação motora, um bebê come pelas mão de sua mãe ou recebe o “aviãozinho” com a comida picadinha. Ele aprende assim a utilizar determinada ferramenta (os talheres) de uma maneira específica.

E comer não é tão simples como aparenta pelo nosso hábito diário. Existem proibições religiosas (como não poder comer carne de porco); superstições e crenças que não são reais e mesmo assim são conhecidas por todo mundo (como o risco de misturar manga com leite); e hábitos alimentares que surgem a partir da relação do homem com a comida e são independentes do valor alimentar (podemos pensar em porque não comemos carne de cachorro e gato embora eles sejam fontes de proteína como qualquer outro animal).

A forma como comemos não só revela a cultura que pertencemos, como também a classe ou a época em que vivemos. Os hábitos à mesa podem ser simplificados no dia a dia, mas existem diversas regras que devem ser aprendidas para frequentar determinados grupos sociais. Uma mesa posta com diferentes talheres e taças pode se tornar um pesadelo para quem não foi ensinado.

Comer também nos dá identidade. Somos brasileiros muito mais por comer uma feijoada no final de semana, muito mais por saber o que é um bom prato de feijão com arroz, bife acebolado e salada do que por saber a letra completa do hino nacional.

A nossa relação com a comida é uma relação de identidade social. Reagimos com estranhamento a hábitos alimentares de outros povos se eles são muito diferentes do nossos e nos identificamos quando se parecem. Aprendemos a compartilhar e o valor da reciprocidade oferecendo um cafezinho para a visita ou dividindo o último biscoito do pacote.

Comer é mais do que uma necessidade básica, é uma forma de entender e compartilhar o mundo. É uma das formas como se molda uma das necessidades mais básicas em uma forma específica – entre inúmeras possibilidades – de ser humano.

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